Antes de falarmos do cenário político atual, convém relembrarmos, ainda que resumidamente, como foram eleitos e o que fizeram os presidentes civis a partir de 1985.
DIRETAS JÁ
Ainda não existiam eleições diretas para eleger o presidente do Brasil, e o povo não se conformava com isso. Em 1983 ocorreu a primeira manifestação a favor das eleições diretas, em São Paulo, reunindo cerca de 10 mil pessoas. Em 1984, o movimento cresceu e tomou conta do país, sob o lema “Diretas Já”. Porém, não foi dessa vez. A emenda “Dante de Oliveira”, em favor das eleições diretas, não passou pelo Congresso, influenciado pelos militares. O presidente civil foi eleito indiretamente, por meio do Colégio Eleitoral.
OS CANDIDATOS
Dois candidatos foram escolhidos para disputar a presidência: Paulo Salim Maluf (pela ARENA, partido dos militares) e Tancredo Neves, candidato da “Aliança Democrática”, pelo PMDB e pelo Partido da Frente Liberal. Tancredo venceu as eleições, porém não conseguiu assumir o poder, pois faleceu antes. Assumiu, então, a presidência seu vice, José Sarney, da ARENA, partido que posteriormente mudou a sigla para PDS.
GOVERNO SARNEY
Começou a governar a partir de 1985, tendo sobre os ombros uma “herança maldita” adquirida dos militares (superendividamento e inflação). Durante seu governo, a inflação ultrapassou 1.700%. O salário do trabalhador era corroído com a velocidade de um jato supersônico. Os preços dos produtos, principalmente nos supermercados, eram remarcados para cima três vezes ao dia. O dinheiro não valia nada. O povo começou a fazer estoques de alimentos em casa para fugir dos constantes aumentos. Nenhum dos planos econômicos para conter a inflação deu certo.
ELEIÇÕES DIRETAS
Em 1988 foi promulgada a “Nova Constituição” (vigente até hoje), que trazia em seu bojo, como conteúdos irrevogáveis e inegociáveis (cláusulas pétreas), o modelo de governo democrático e o direito às eleições diretas para presidente.
PRIMEIRO PRESIDENTE ELEITO PELO VOTO DIRETO
Nunca houve no Brasil um grupo tão qualificado e heterogêneo para disputar o cargo tão cobiçado. Entre os concorrentes, podemos citar: Ulysses Guimarães, Lula, Mário Covas Jr., Paulo Maluf, Guilherme Afif, Aureliano Chaves, Fernando Collor de Mello e outros.
QUAL ERA A MELHOR ALTERNATIVA PARA OS ELEITORES
Na época, na mentalidade coletiva dos votantes prosperava, ainda que sutilmente, um sentimento de mudança e renovação, novas esperanças que seriam conquistadas por meio do voto e de uma ruptura definitiva com o passado. Esse foi o sentimento que acabou prevalecendo e levou ao segundo turno dois candidatos que não tinham praticamente nenhuma projeção no grupo dos “figurões”: Fernando Collor de Mello (PRN), ex-governador de Alagoas, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), ex-metalúrgico e ex-presidente do sindicato de sua categoria.
Collor apresentava-se ao público como o “caçador de marajás” (autoridades políticas dos três Poderes e funcionários do alto escalão que recebiam salários além do teto preestabelecido) e o presidente que acabaria com a inflação e com toda sorte de corrupção. Enquanto isso, Lula apresentava um programa para acabar com a fome e a miséria que tomavam conta do país. As propostas de Fernando Collor, somadas ao apoio da Rede Globo, prevaleceram, e Collor foi eleito o primeiro presidente pelo voto direto, pós-ditadura, em 1989.
Em 1990, sua grande medida foi impor à nação o “Plano Collor”, que promoveu um inédito confisco monetário, além do congelamento de preços e salários. Desta vez, as gôndolas dos supermercados permaneciam vazias, pois nenhum produtor estava disposto a perder. O plano não conseguiu conter o “dragão insaciável da inflação”, cujo apetite foi redobrado, elevando o índice inflacionário para 2.708,39%. A economia entrou em colapso e atingiu todas as classes sociais cuja renda estava sob confisco.
Em dois anos de governo, o presidente envolveu-se em escândalo de corrupção em parceria com Paulo César Farias, foi afastado do poder por renúncia e impeachment. Posteriormente, como senador da República, envolveu-se novamente em escândalos e encontra-se em prisão domiciliar, utilizando tornozeleira eletrônica. Após deixar a presidência, foi substituído por seu vice, Itamar Franco.
GOVERNO DE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Durante o governo de Itamar Franco, surgiu o “Plano Real”, orquestrado por seu ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, que, em seguida, tornou-se presidente. O plano previa valorização da moeda, que passou a se chamar “real”, contenção da inflação, atração de investimentos estrangeiros, abertura de mercados, estabilidade fiscal, privatização de estatais e derrubada de monopólios. Em suma, FHC aderiu ao neoliberalismo econômico, já em prática em diversos países.
Com a moeda mais forte e sem inflação, o povo comprava mais e gastava menos, pois os preços não mudavam e o salário passou a ter valor. Essa conjuntura favorável contribuiu para eleger FHC (PSDB) como presidente, em 1995.
Em seu segundo mandato, promoveu reformas na Previdência Social (INSS), aumentando o tempo de contribuição para requerer a aposentadoria, medida impopular e criticada por sindicatos e trabalhadores. Foi também nesse período que surgiram os primeiros sinais de recessão e ameaça de retorno da hiperinflação. O presidente adotou medidas austeras para manter a estabilidade econômica, o que gerou novas críticas.
A ONDA VERMELHA TOMA CONTA DA AMÉRICA LATINA
Antes do final do governo FHC, uma onda de esquerda atingiu a América Latina, e a maioria dos países elegeu candidatos dessa ala. No Brasil, foi eleito e reeleito, a partir de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com propostas de combate à fome, à miséria e ao desemprego.
Durante seus dois mandatos, o governo foi marcado por denúncias de corrupção, fraudes e escândalos (mensalão, Petrobras etc.), além de investigações conduzidas pela Operação Lava Jato. Ao término de seu governo, conseguiu eleger e reeleger sua sucessora, Dilma Vana Rousseff (PT).
Dilma sofreu impeachment em seu segundo mandato, sob acusação das chamadas “pedaladas fiscais”, e foi substituída por seu vice, Michel Temer.
O RETORNO DA DIREITA NO BRASIL
Em 1º de janeiro de 2019, tomou posse como presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), capitão reformado e ex-deputado federal, identificado com a direita. Após seu primeiro mandato, não conseguiu se reeleger. Posteriormente, foi investigado e julgado por atos considerados inconstitucionais, incluindo acusações relacionadas à tentativa de golpe de Estado.
O PT VOLTA AO PODER
Em 2023, Luiz Inácio Lula da Silva venceu as eleições presidenciais por pequena diferença de votos em relação a Bolsonaro, o que intensificou a polarização no país. O atual governo enfrenta dificuldades de governabilidade em razão da falta de consenso entre os Poderes e de novos escândalos que abalam a confiança da população.
O POVO ESTÁ DESCRENTE NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS
O ânimo dos eleitores está em baixa. Diante de sucessivos escândalos e da percepção de distanciamento entre representantes e representados, cresce o sentimento de descrença.
Da primeira eleição direta para presidente até agora, já se passaram mais de três décadas, e estamos próximos de retornar às urnas pela nona vez. Muitos questionam se as escolhas feitas foram as melhores ou se o velho adágio popular — “o poder corrompe” — continua a se confirmar.
O processo eleitoral para a escolha de um novo presidente já está aberto. Pesquisas indicam que o país encontra-se dividido entre eleitores de Lula, de Bolsonaro e um terceiro grupo que rejeita ambos e busca uma alternativa capaz de representar equilíbrio e moderação.
PROFESSOR MARCOS MORAES