terça-feira, 17 de março de 2026

PORQUE O IRÃ ODEIA TANTO OS EUA E ISRAEL?

A pergunta não é muito fácil de ser respondida com poucas palavras , para isso é necessário buscar conhecer ainda que resumidamente a história do Irã, levantar alguns fatos para chegarmos a esse conhecimento. 

PEQUENA HISTÓRIA DO IRÃ. O Irã está situado no Oriente Médio, entre o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz e Golfo de Omã. possui uma área de 1.628.771 km2 e uma população de aproximadamente 42 milhões de habitantes. 

SUA GEOGRAFIA E HISTÓRIA Domínio de Planaltos elevados (sujeitos a instabilidades geológicas) a altitude ameniza as temperaturas elevadas, porém não as condições de escassez de chuvas (clima predominante subtropical desértico) . O Irã abriga vários povos e Estados da Antiguidade, com destaque para o Império Persa, fundado em 539 a.C., por Ciro, “O Grande”, por isso todo iraniano é de origem persa. Ao norte nas montanhas encontram-se os solos mais férteis. Porém a força de sua economia provém das reservas de petróleo (antes das sanções sofridas, era o 2º maior exportador mundial, só perdia para Arábia Saudita). Em 642 d.C., a Pérsia foi conquistada pelos árabes que promoveram a conversão da população do Zoroastrismo para o Islamismo, principalmente xiita, que até hoje representa a maioria da população.

SÉCULO XI – O país foi invadido pelos turcos e mongóis , que mudaram o governo, costumes e tradições dos persas iranianos. No século XVI, O Irã recuperou sua independência e passa a ser governado pela Dinastia Safávida, através do Sultão Qajar, 1.907- O R.U e a Rússia invadiram o Irã e dividiram o território em áreas de influência, já que o Irã tinha uma localização estrategicamente privilegiada, com saída para o mar e grandes reservas de petróleo. Em 1.908- Os britânicos descobrem as reservas petrolíferas do Irã e logo iniciam sua exploração , para exportar e abastecer o R.U. em pleno desenvolvimento industrial .

GOLPE DE ESTADO- Em 1.921, ocorreu no Irã, um golpe de Estado, que marcou a modernização do país. Foi nesta época que o General “Reza Khan “, muçulmano sunita, derrubou o sultão Qajar, coroando-se Xá (título de realeza) . Em 1.926, o xá, mudou seu nome e passou a chamar-se Reza Shah Pahlevi.

ENTRA EM CENA O IRÃ- Em 1.935 o xá, através de um decreto real, muda também o nome do país , de Pérsia para Irã. Durante a 2ª G.M, o Irã foi ocupado novamente pelos britânicos e soviéticos cujos interesses além do petróleo era buscar uma saída para os mares do sul,( já que a URSS tinha dificuldade para saída em mares abertos) , nesta época o xá demonstrava toda sua simpatia pela causa nazista (já era, o começo explicito da antipatia pelos judeus , que até então em sua maioria vivia na Europa, e eram perseguidos pelos nazistas).Com idade já avançada o xá abdica o trono a seu filho Mohammad Reza Pahlevi.

O GOVERNO DE REZA PAHLEVI (SUNITA) Em 1.951, o primeiro ministro Mohammed Mossadegh, nacionaliza o “Cartel das 7 Irmãs do Petróleo” empresas ocidentais que operavam toda cadeia logística do petróleo iraniano, ao mesmo tempo o 1º ministro entra em confronto com o Xá que abandonou o Irã. O ocidente em represália boicota o petróleo iraniano e o país começa a viver uma grave crise econômica. Em agosto de 1.953, no auge da crise, Mossadegh é deposto por um golpe militar orquestrado pelo R.U e EUA (percebam que o EUA está entrando e interferindo na história política do Irã) 

O RETORNO DO XÁ AO PODER- Reza Pahlevi, retorna com poderes ditatoriais, e promove um verdadeiro “caça às bruxas” contra os xiitas, exilando seu maior inimigo, (“o aytolá- Khomeini, em Paris). Em 1.963, o xá, promoveu a “REVOLUÇÃO BRANCA” ( mudanças dos costumes antigos por reformas e costumes  ocidentais) em outras palavras a revolução em promoveu a “ocidentalização” do Irã, até então fechado e arraigado na fé radical xiita. A forte presença americana e a ocidentalização, desagradou a maioria xiita da população e das elites locais , que consideram os costumes ocidentais “HARAM” (PECADO), uma ofensa contra a Sharia (leis islâmicas) e contra Alá. Sob o ponto de vista da política internacional, em 1.968, o Irã, assina o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares” o que significa que ficou proibido de enriquecer urânio acima de 20% (apenas para fins pacíficos). Em 1.978 a crise econômica, a corrupção exacerbada, a fome, e os costumes ocidentais , levaram a união dos oposicionistas , influenciados por Khomeini no exilio que muito ajudou a promover a insurreição, o governo não resistiu , o xá fugiu com sua família para os EUA, o poder foi tomado pelos xiitas que trouxeram de volta para o Irã Khomeini , chamaremos esse episódio de “REVOLUÇÃO ISLÂMICA”

REVOLUÇÃO ISLÂMICA Khomeini assume o poder no Irã em Fevereiro de 1.979 , em 1º de Abril, o Irã é declarado uma república islâmica de regime teocrático , onde Khomeini torna-se ao mesmo tempo líder religioso e político supremo do país (o aytolá) . 

Aytolá na hierarquia religiosa seria para o catolicismo o equivalente ao cardeal, cujo grupo, escolhe o papa, por votação, foi desta forma que  Khomeini foi escolhido , em suas declarações e entrevistas deixou claro que os principais inimigos de Alá , filhos de Satã , são EUA e Israel e que tudo fará para varre-los da terra. Declarou ainda que não reconhece a legitimidade do Estado de Israel. E cortou relações diplomáticas com EUA e URSS. ( Bem, aqui está parte da resposta a sua pergunta feita no início deste texto) . Portanto desde o momento em que o regime teocrático foi instalado Israel vem sendo constantemente atacado, pelo Irã e suas milícias fora do país.

A CRISE NA EMBAIXADA DOS EUA DENTRO DO IRÃ- O aytolá Khomeini, pediu aos EUA a extradição de Reza Pahlevi, para ser julgado no Irã, segundo as leis islâmicas. EUA não respondeu imediatamente e os membros da Embaixada Americana no Irã, tornaram-se prisioneiros, o aytolá declarou que só os livraria do cárcere quando o EUA enviasse Reza Pahlevi. Isso levou um longo tempo, não suportando mais as pressões dos familiares e das organizações internacionais, a Casa Branca, resolveu extraditar o Xá, que não chegou ao destino final, morreu no avião, a meio caminho do Irã, o que dificultou ainda mais a libertação dos reféns . Porém as pressões exercidas pela ONU e pela comoção mundial levou o aytolá a libertar todos os prisioneiros americanos em Janeiro de 1.981. Um ano antes o Irã já estava envolvido em guerra contra o Iraque, pela disputa do Estuário de Chatt-el-Arab, no Golfo Pérsico, única saída do Iraque para o Mar. A guerra durou oito anos, sem vencedor. Em 1.988 com intervenção da ONU e o fim da Guerra, as fronteiras não foram alteradas e as águas do estuário foram internacionalizadas.

O CONFRONTO ENTRE OS AIATOLÁS E AS FORÇAS CIVIS IRANIANAS- A revolução islâmica que teve inicio em 1.981 evoluiu para um confronto direto entre os aiatolás, partidários do governo teocrático e as forças civis que defendiam a separação entre Estado e Religião. Os civis denominados “mujahedim” , não tiveram a mínima chance , foram derrotados. Porém novos problemas surgiram : como problemas econômicos relacionados ao petróleo, que ocasionou uma série de divergências entre os aiatolás. A ala moderada (reformista) defendiam a parceria com o ocidente, para o desenvolvimento do país. A ala radical, conservadora opunha-se a qualquer tipo de influência externa , principalmente dos EUA. A morte do aytolá Khomeini em Junho , favoreceu a ala pragmática , com isso o sucessor indicado foi Ali Khamenei .

PRIMEIRO TESTE DE FOGO AO NOVO AIATOLÁ- Em 2.002 , o governo George W. Bush (EUA) incluiu o Irã , no chamado “Eixo do Mal” (países acusados de patrocinar o terrorismo e suspeitos de produzir armas de destruição em massa, a esses estavam reservadas “as guerras preventivas” , (que 2º Bush não precisam de autorização para atacar o oponente). A partir desse momento foram apontados os 3 primeiros alvos: Iraque, Irã e Coréia do Norte. Em 2.003 a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirma as suspeitas dos EUA ao afirmar que o Irã ocultou durante 18 anos, um programa nuclear paralelo, fato esse que causou grande preocupação dos organismos internacionais, dos países ocidentais e de Israel.

O PRESIDENTE AHMADINEJAD Conservador, radical, repressor , um dos mais odiados pelo próprio povo e pelo ocidente . Foi eleito em 2.005, e posteriormente reeleito . Seu governo teve como marca registrada a defesa do programa nuclear do país , o que levou a ONU a decretar sanções contra o Irã. A outra grande marca de sua gestão foi a retórica anti-Israel prometendo destruir o país judaico. Na mesma época o Irã foi acusado de terceirizar guerras contra Israel , através do Hamas e Hezbollah (ambos patrocinados pelo Irã sempre mantiveram ataques contra Israel).

A CRISE ECONÔMICA TORNAR-SE MAIS DRÁSTICA. As sanções aplicadas pela ONU e EUA contra o sistema financeiro e embargos na exportação de petróleo em represália ao Programa Nuclear Iraniano , comprometeram significativamente a economia do país. Em 2.011 o “Rial” (moeda nacional) perdeu 2/3 de seu valor e a inflação superou a casa de 40% . A saída para esse impasse seria a concordância em assinar um Acordo Nuclear com as potências ocidentais. O ACORDO NUCLEAR. A crise nuclear, tornou-se mais grave quando a AIEA, em Janeiro de 2.012, afirmou que o Irã já havia começado a enriquecer urânio acima do limite estabelecido , em suas três usinas nucleares, principalmente na usina de Fordow encravada em uma montanha a 90 metros de profundidade . A AIEA, declarou em Maio que encontrou traços de urânio enriquecido a 27% . Para  entendermos: a etapa mais complicada na fabricação da bomba é superar 20% de enriquecimento, isso exige um grupo de cientistas nucleares eficientes, material apropriado, tecnologia nuclear etc...Para concluir a fabricação da bomba é necessário chegar a 90% de enriquecimento. O Irã já havia passado pela fase mais difícil e já estava a meio caminho de concluir seu projeto. Em Agosto de 2.013, Ali Khamenei, indicou como candidato a presidência do país, o moderado, Hassan Rouhani, eleito no dia 03 de Agosto de 2.013, seu objetivo e interesse, foi o de estabelecer laços afetivos com o Ocidente. Em setembro de 2.013, em um discurso realizado na ONU, Rouhani afirmou que o Irã estava pronto para negociar uma saída para a questão nuclear. Imediatamente fala por telefone com o presidente dos EUA, Barak Obama, esta aproximação abriu caminho para a assinatura de um Acordo Nuclear provisório, em Novembro. A ala ultraconservadora e radical , principalmente a “Guarda Revolucionária” reprovou o dialogo mantido com os EUA. Porém a diplomacia iraniana obteve “Carta Branca” do aytolá para assinar o acordo preliminar com o grupo P5+1 ( cinco representantes do conselho de segurança da ONU mais Alemanha). Pós assinatura ,em Genebra- Suíça, o programa nuclear iraniano foi congelado por 6 meses. Pelo acordo, o Irã deveria eliminar totalmente o estoque de urânio enriquecido, acima de 20%, mas poderia continuar enriquecendo a níveis inferiores até 5% . Em troca o Irã recebeu um alivio das sanções no valor de 7 bilhões de dólares o que corresponde.  acesso ao dinheiro bloqueado em contas externas. Além disso conseguiu diminuir a restrição a exportação de petróleo. O “rial” estabilizou-se e a inflação caiu para 15%. O acordo entrou em vigor em 2.014. Podemos dizer que a tensão entre o Irã e o Ocidente, amenizou, porém não chegou ao fim . O acordo firmado não era perfeito, deixou várias arestas que não foram aparadas. Os dois lados cumpriram com o prometido , ajudando a criar um clima de confiança para o avanço das negociações finais. O que não aconteceu até hoje.

O QUE FALTOU PARA COLOCAR UMA PEDRA SOBRE ESSE PROBLEMA? - Os EUA exigem que o Irã reduza suas instalações para menos de 5 mil centrifugas e limite a produção de plutônio em Arak. -O Irã pleiteia a suspensão das sanções em ritmo mais acelerado. Israel, por sua vez, exige que o Irã o reconheça como Estado legitimo e de fato -Além disso, os dois lados, enfrentam duras negociações internas. Obama (pres. Dos EUA), tem pela frente um Congresso hostil a qualquer tipo de acordo com o Irã. -Rouhani (pres. Do Irã) enfrenta forte objeção da ala mais radical do regime para negociar com os EUA.

PRIMEIRO GOVERNO DE TRUMP- Eleito pela 1ª vez em 09 de Novembro de 2.016,sua atitude em relação ao caso com o Irã foi criticar veemente o Acordo Nuclear realizado por seu antecessor . Considerando um acordo frouxo, inconclusivo, que mais favorecia o Irã do que o resto do mundo. Diante disso Trump, deixou o acordo, dizendo: “Ou é tudo , ou Nada”, em outras palavras. Ou o Irã destrói completamente seu Projeto Nuclear ou Nada feito. Diante disso o acordo o acordo tornou-se frágil e o Irã sigilosamente voltou a enriquecer uranio acima de 20% e continuou a atacar Israel, através de suas milícias terceirizadas: Hamas (palestinos de Gaza), Hezbollah (libaneses xiitas do Líbano) e Houtis (iemenitas xiitas do Iêmen). 

JANEIRO DE 2.020 Americanos eliminam o comandante da guarda revolucionária iraniana, Qasem Soleimani, considerado o número 2 da hierarquia do poder do país, responsável por extensa lista de atentados terroristas. O ataque foi pontual, ocorreu no momento em que Soleimani, desembarcou de um voo no Iraque e tomou um carro que o levaria de volta para o Irã. Em meio a trajetória o veículo foi surpreendido e atingido por um drone americano que explodiu o carro matando todos os passageiros, Soleimani era considerado um dos principais inimigos dos EUA. O Irá que até então estava rachado entre povo e poder se uniu em um só grupo (nação) revoltada . A comoção nacional, levou o povo as ruas para destilar seu ódio e vingança contra os EUA. No dia 08 de Janeiro o Irã retaliou, o episódio, bombardeando bases americanas e o voo 752 da Ukraine International Airlaines com 176 passageiros a bordo, sem deixar sobreviventes. Embora no início Teerã tenha negado qualquer participação em relação a tragédia, a verdade logo veio à tona, o Irã assumiu a culpa, declarando que o abatimento do avião foi “por engano”. A falta de transparência do Irã, foi combustível para uma nova onda de protestos do povo contra o regime , duramente repreendida pelas “Forças Especiais” do  governo. Logo após esta semana tão tensa, ficou muito claro que a pressão externa contra o Irã só iria aumentar. Trump avisou que apertaria o cerco das sanções econômicas. Por outro lado o aiatolá disse que iria acelerar os trabalhos em suas usinas de enriquecimento de urânio ao invés de recuar como estava previsto, essas palavras levaram o pacto nuclear a estaca zero. O SEGUNDO MANDATO DE TRUMP Em 2.025 a AIEA informou que o Irã estava cada vez mais próximo de produzir a tão cobiçada bomba. A notícia causou temor, preocupação e até um certo desespero tanto em Israel quanto nos EUA, que eram os principais alvos. Neste período Israel estava envolvido em um duro combate contra o Hamas e o Hezbollah. Mesmo assim Israel não esperou para ser atacado, agiu antecipadamente e de maneira surpreendente, em 12 de Junho de 2.025, através de sua Força de Defesa , sobrevoou o Irã , atingindo alvos militares e duas usinas de enriquecimento de urânio Natanz e Isfahan, só não conseguiu destruir a 3ª usina ”Fordow”, encravada em uma montanha, a 90 metros de profundidade. EUA ENTRA NO ATAQUE. Diante desta ocorrência Trump resolveu participar do ataque, em apoio a Israel , pois os americanos, são os únicos no mundo que dispõe de dispositivo capaz de atingir grandes profundidades. E, foi assim que no dia 21 de Junho de 2.025, o EUA utilizou a bomba GBU-57, com 13,6 ton., transportada até o local pela aeronave B2- Spirit e bombardeou Fordow. A bomba atingiu 60 metros de profundidade e explodiu, causando graves avarias a usina , porém não a destruiu por completo, isso representa que o Irã continua sendo um perigo. Diante desse novo cenário o Irã sofreu um baque em seu Projeto Nuclear e sua economia em razão dos ataques. Já, encontrava-se  enfraquecida e dava sinais de plena penúria, para piorar o cenário , no mês de Setembro a ONU aplicou novas sanções. De certa forma o massacre militar e econômico seria a formula mais certa para liquidar o regime     acabar com o programa nuclear. Insuflados pelos EUA o povo iraniano saiu as ruas com intensos protestos para derrubar o aiatolá.

OS PROTESTOS DA POPULAÇÃO No dia 28 de Dezembro , comerciantes de Teerã e outros centros comerciais espalhados pelo país entraram em greve, fechando suas lojas . Simultaneamente o povo aglomerava-se nas ruas , praças, e em todos locais possíveis para protestar e eram reprimidos violentamente pela Guarda Revolucionária e policiais. Os protestos tinham como objetivos centrais: acusar o governo pela humilhação sofrida diante dos ataques e pela economia exaurida que atingia em cheio os trabalhadores; como por exemplo: desvalorização do Rial que chegou a sua cotação mais baixa frente ao dólar ( para comprar 1 dólar americano era necessário 1,45 milhão de rial), a inflação subiu 42,2% . Os protestos que haviam começado na capital espalharam-se, para as demais cidades do país, a cada dia tornava-se mais violento a ponto de ativistas dos direitos das mulheres, estudantes, trabalhadores etc...gritarem  frequentemente, várias “palavras de ordem”; entre elas “Morte ao ditador e nem Gaza , nem o Líbano , minha vida é pelo Irã”. A polícia utiliza gás lacrimogêneo para a dispersão, houve confronto entre os dois lados, com muitas mortes e feridos.

A ADVERTÊNCIA DE TRUMP No dia 03 de Janeiro de 2.026 , Donald Trump, fez uma série de advertências contra o comando iraniano , declarando: “Se atirarem contra os manifestantes , os EUA virão em seu socorro” e ainda completou : “ as autoridades iranianas serão atingidas com força caso, mais manifestantes venham a morrer” . Com essa deixa, os protestos intensificaram-se ainda mais , a cúpula iraniana no dia 08 de Janeiro, as20 horas, resolveu cortar as linhas telefônicas e as comunicações via internet em todo país (foi um apagão no setor de comunicações).Isso favoreceu o governo a colocar em pratica repressões intensivas e brutais sem serem vigiados. O bloqueio da Internet perturbou a vida cotidiana do povo e dos manifestantes; incluindo transações digitais, bem como o pleno funcionamento de hospitais , farmácia, escolas, bancos etc...bem como deixou o Irã isolado do resto do mundo, não fornecendo nenhuma informação sobre a carnificina, principalmente aos EUA. Como não se bastasse o governo resolveu também desligar as luzes de todas as ruas. Apesar deste novo “apagão”, no dia 10 de Janeiro, o “The Guardian” documentou e publicou, múltiplos relatos das ações da Força de Segurança, atirando contra manifestantes, com testemunha ocular afirmando ter visto centenas de corpos estendidos por toda capital. O povo pedia desesperadamente a saída de Kamanei e sua substituição pelo príncipe Reza Pahlevi, (filho do antigo Xá).

O PRÍNCIPE REZA PAHLEVI milionário, considerado um playboy desde a mocidade até os dias atuais, resolveu aparecer. Pahlevi expressou seu apoio aos manifestantes e convocou todos os iranianos , inclusive a Força de Segurança a se juntarem aos protestos para derrubar o regime. As manifestações não paravam , pelo contrário eram alimentas por forças interiores e exteriores. O cenário no Irã era o mais tenebroso possível e isto abria cada vez mais oportunidades para Israel e EUA forçarem uma negociação ou calar de uma vez por todas o Irã.

NOVAS NEGOCIAÇÕES- O Irã aceitou negociar. As duas primeiras reuniões entre iranianos e norte americanos não foram concluídas, caminhavam a passo de “tartaruga” o que irritava sobremaneira a “Casa Branca”. A 2ª reunião ocorreu no dia 26 de Fevereiro de 2.026, na Suíça, em Genebra. Logo após o encontro e mais uma vez não concluído, foi marcada uma 3ª rodada também chamada de “Reunião Emergencial”, o ministro das relações exteriores de Omã,
Badr bin Hamad Al Busaidi, mediador entre os dois países, falou em “progresso significativo,” das duas reuniões anteriores. O EUA recusou a comentar ou precisar qualquer parecer sobre os encontros já ocorridos. Tudo parecia correr bem na cabeça dos iranianos que já se preparavam para a 3ª rodada. O mesmo não acontecia na cabeça de Trump que acusou o Irã de postergar as decisões para ganhar o máximo de tempo possível. 

O QUE FALTAVA PARA A CONCLUSÃO FINAL ? O Irã persistia que as negociações se limitassem estritamente ao programa nuclear. Já os EUA queriam restringir o alcance dos misseis balísticos iranianos e limitar o apoio do país as milícias aliadas em todo Oriente Médio. Em troca o EUA suspenderia as sanções econômicas. O terceiro encontro para tratar esses assuntos não ocorreu. Antes disso, no dia 28 de Fevereiro, Trump de maneira precipitada, impaciente, tomou uma decisão drástica e unilateral com o apoio de Israel promoveu um surpreendente e amplo bombardeio aéreo contra o Irã aproveitando-se do momento de notável fraqueza do regime e da oportunidade de derrubar o regime e conclamar o povo a tomar o poder. O proeminente político reformista, Mustafá Tanzadeh, já havia criticado as ações do governo, iraniano, contra os manifestantes e a crise econômica que está empurrando o país, para falência total. Ele pediu a abolição da Teocracia e uma reforma democrática do sistema exortando que as instituições religiosas retornem ao seu papel tradicional nos seminários e que a autoridade política seja devolvida ao povo. O embaixador dos EUA nas Nações Unidas , Michael Waltz, disse: “ O povo do Irã, já está cansado de um regime duro e ultrapassado, medieval, que já dura 47 anos, e quer liberdade. Nós estamos do lado do povo nas ruas de Teerã e em todo país”. Como o Irã não deu ouvidos, uma segunda onda de bombardeios aéreos muito mais violenta que a 1ª, orquestrada pelos EUA e Israel , causou milhares de mortes (segundo dados cerca de 12.000) grave destruição de prédios, da infraestrutura física do Irã e depósitos de armas. Além disso causou a morte do aiatolá Khamenei e 49 líderes do governo. Porém, um dos ataques, causou maior comoção nacional e internacional foi o bombardeio aéreo a uma escola primária feminina Shajared Tayabeh, em Minab , que promoveu a morte de 168 crianças. Os caixões das crianças , com a bandeira do Irã e a foto de cada criança foi transportado por caminhões e levado até um terreno onde ocorreu o enterro coletivo, chocante, revoltante e banhado de lágrimas. O EUA declarou que pensou que a Escola fosse um depósito de armas e se desculpou pelo engano.

AS REAÇÕES IRANIANAS - Ataque massivo a Israel, a bases americanas espalhadas pelo O.M, Fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa, 1/5 do petróleo do Oriente Médio, distribuído pelo mundo, a consequência desse ato é atingir a economia global que ainda depende do petróleo e do gás.

- Convocar seus aliados principalmente o Hezbollah e Houtis para atacarem sem piedade Israel - Espalhar a guerra por todo território aliado dos EUA , principalmente a Arábia Saudita e países do Golfo Pérsico.

- A China negociou com o Irã misseis anti-navios hipersônicos , capazes de destruir porta aviões como o Gerald Ford (o maior do mundo). 

TRUMP ANUNCIA A 3ª GRANDE ONDA DE ATAQUE- No dia 02 de Março de 2.026, o presidente do EUA, afirmou : “ A grande onda de ataques ainda está por vir contra o Irã.” E ainda complementou “O EUA estão dando uma surra no Irã, ainda nem começamos atingi-los com força”. Questionado sobre a duração do conflito , o republicano respondeu: “Sempre achei que duraria de 4 a 5 semanas” disse ainda que não descartava a presença de tropas americanas no Irã caso fosse necessário.

PODEMOS DIZER QUE COM A MORTE DO AIATOLÁ O REGIME CHEGOU AO FIM ?- Não. Primeiro precisamos entender como foi arquitetado e como funciona o regime dos aiatolás. QUEM MANDA NO IRÃ? Na república dos aiatolás a vontade dos eleitores é o que menos importa; o que importa é a vontade do Conselho dos Especialistas ou Guardiães, formado por duas alas: moderados e radicais.

COMPOSIÇÃO DO GOVERNO - LÍDER SUPREMO- aiatolá , escolhido pela assembleia dos especialistas, composta por 86 membros com mandato de 8 anos , que além de escolher o supremo , tem poder para destitui-lo. Poderes do líder supremo: Maior autoridade religiosa e política , controla as forças armadas, o judiciário, a política externa, a economia, o serviço de inteligência e os meios de comunicação. -PRESIDENTE – CHEFE DO EXECUTIVO, subordinado ao aiatolá, cuida do dia a dia do governo , possui um mandato de 4 anos , com direito a reeleição. -CONSELHO DOS GUARDIÕES – Formado por 6 clérigos indicados pelo líder supremo e 6 juristas indicados pelo judiciário. Decide quem pode se candidatar as eleições -CONSELHO DE DISCERNIMENTO- formado por 34 assessores do líder supremo, com poderes para supervisionar o Legislativo e o Executivo (presidente). Em seguida vem as Forças Armadas, Meios de Comunicações e Judiciário ; supervisionados pelo líder supremo e pelo conselho de guardiões. Portanto na morte de um líder supremo ocorre uma mudança automática. Um novo aiatolá passa a ser indicado. Percebam como essa estrutura de poder é fechada, bem arquitetada, de difícil acesso , mas não impossível de ser derrubada. Até o momento, EUA e Israel, não chegaram nem perto de mudar o regime iraniano. Embora os ataques tenham matado o líder supremo, Ali Khamenei, e outros líderes entre pragmáticos e moderados como declarou Trump, porém o regime “Não” caiu. Nem mesmo o Programa Nuclear foi totalmente destruído . O Irã ainda guarda toneladas de urânio enriquecido e misseis balísticos, cuja quantidade  não foram divulgados.

A POSSE DO NOVO AIATOLÁ- No domingo, 08 de Março de 2.026, o Conselho dos Especialistas escolheu com substituto de Khamenei, seu filho, Mojtaba Khamenei, um aiatolá mais jovem mais radical que o pai, que assumiu o governo enlutado e enfurecido pela perda do pai e esposa nos ataques desferidos pelo EUA . Na 2ª feira, Trump criticou veemente a escolha do novo aiatolá , declarando : Acho que eles cometeram um grande erro” e continuou , “Não sei se ele vai durar muito tempo”. A preocupação de Israel e EUA deixou de ser o Programa Nuclear, que atualmente encontra-se esfacelado. O grande problema atual é o petróleo, que representa uma  arma geopolítica, capaz de provocar o caos na economia mundial, pela falta de abastecimento suficiente, promove escassez de oferta, que por sua vez gera elevação brutal dos preços, alimenta a inflação e a recessão . O Irã bloqueou o Estreito de Ormuz, passagem de 30% do petróleo, exportado pelo Oriente Médio aos demais países da aldeia global. Sabemos muito bem que ficar sem petróleo ou gás pressionará todo setor econômico mundial. O mundo continua dependente de um fornecimento confiável, mesmo que atualmente o consumo tenha diminuído em função de novas fontes energéticas alternativas que surgiram recentemente, os hidrocarbonetos continuam sendo essenciais .

 

PROF. MARCOS MORAES.              

segunda-feira, 9 de março de 2026

O DRAMA DOS REFUGIADOS: FRONTEIRAS, EXÍLIO E A CONSCIÊNCIA DA HUMANIDADE

 Ao longo da história, poucas experiências humanas são tão devastadoras quanto a perda da própria terra. A casa abandonada às pressas, os objetos que ficam para trás, os caminhos percorridos sem destino certo e o medo constante do que virá adiante compõem a realidade de milhões de pessoas que, em diferentes momentos da história, foram obrigadas a fugir para sobreviver. O fenômeno dos refugiados não é apenas um problema político ou geográfico; trata-se, sobretudo, de uma tragédia profundamente humana que revela as contradições morais do mundo contemporâneo.

Para compreender esse fenômeno, é importante distinguir duas categorias frequentemente confundidas: imigrantes e refugiados. O imigrante decide deixar seu país em busca de melhores oportunidades de vida, estudo ou trabalho. Trata-se de um movimento voluntário, ainda que impulsionado por necessidades econômicas ou aspirações pessoais. O refugiado, por sua vez, não possui essa liberdade de escolha. Ele abandona sua terra porque permanecer significaria colocar em risco a própria vida ou a de sua família. Guerras, perseguições políticas ou religiosas, crises econômicas devastadoras e colapsos institucionais transformam milhões de pessoas em deslocados forçados.
A jornada desses indivíduos costuma ser marcada por perigos extremos. Travessias marítimas em embarcações improvisadas, longas caminhadas por desertos ou regiões geladas, redes clandestinas de contrabandistas humanos e fronteiras cada vez mais militarizadas compõem o cenário dessas fugas desesperadas. Ao longo do caminho, muitos sucumbem à fome, à violência ou ao esgotamento físico. Outros desaparecem no silêncio das águas ou das rotas clandestinas que raramente entram para as estatísticas oficiais.
Mesmo aqueles que conseguem sobreviver à travessia enfrentam novos obstáculos ao chegar ao destino. A burocracia migratória, a precariedade das condições de acolhimento e a hostilidade social revelam um paradoxo inquietante: pessoas que fogem da violência frequentemente encontram desconfiança ou rejeição justamente nos lugares onde buscam proteção. Esse fenômeno, conhecido como xenofobia, acompanha a história das migrações humanas e expõe o medo que muitas sociedades demonstram diante do estrangeiro.
Um exemplo emblemático desse processo pode ser encontrado na trajetória histórica do povo judeu. Após a destruição do Templo de Jerusalém pelo Império Romano no ano 70 d.C., iniciou-se uma longa dispersão conhecida como diáspora. Durante séculos, comunidades judaicas viveram espalhadas por diferentes regiões da Europa e do Oriente Médio, muitas vezes submetidas a discriminações, restrições legais e episódios recorrentes de perseguição.
Essa realidade atingiu sua expressão mais trágica no século XX, durante o regime nazista na Alemanha. O Holocausto representou uma das maiores barbáries já registradas pela história moderna. Aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados em campos de concentração e extermínio, como Auschwitz, em um sistema organizado de perseguição e morte. O horror desse episódio levou a comunidade internacional a reconhecer a necessidade de criar mecanismos institucionais capazes de proteger populações ameaçadas. Nesse contexto surgiu o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), responsável por coordenar ações humanitárias destinadas a pessoas obrigadas a deixar seus países.
Apesar desses esforços institucionais, as crises de deslocamento continuam a marcar profundamente o cenário internacional. Conflitos recentes demonstram que a realidade dos refugiados permanece dramática e atual. A guerra civil na Síria, iniciada em 2011, provocou uma das maiores crises humanitárias do século XXI, forçando milhões de pessoas a buscar abrigo em países vizinhos ou na Europa. Da mesma forma, a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, produziu um fluxo massivo de refugiados em um intervalo extremamente curto de tempo.
Cidades próximas às fronteiras transformaram-se em verdadeiros corredores de fuga. Estações ferroviárias e estradas foram tomadas por multidões que buscavam escapar dos bombardeios. Mulheres, crianças e idosos constituíram a maior parte desses deslocados, enquanto homens em idade militar permaneceram no país para defender o território. As despedidas tornaram-se cenas recorrentes: famílias separadas pela guerra, abraços que poderiam ser os últimos, olhares silenciosos carregados de incerteza.
Essas imagens revelam uma dimensão frequentemente esquecida nas análises políticas: o drama humano que se esconde por trás das estatísticas. Cada refugiado carrega uma história interrompida. Projetos de vida são abruptamente desfeitos; comunidades inteiras se dissolvem; gerações crescem em campos de refugiados ou em territórios que jamais haviam imaginado habitar. O exílio, muitas vezes, transforma-se em uma condição permanente.
Estima-se que, ao longo do século XX e das primeiras décadas do século XXI, dezenas de milhões de pessoas tenham sido obrigadas a abandonar suas terras. Somente a Segunda Guerra Mundial produziu cerca de 12,5 milhões de deslocados na Europa. Conflitos posteriores na Ásia, na África e nos Bálcãs ampliaram ainda mais esse fenômeno. No presente, organizações internacionais apontam que o número de deslocados forçados no mundo alcança níveis historicamente elevados.
Esse cenário impõe à comunidade internacional um dilema complexo. De um lado, os Estados buscam proteger suas fronteiras, preservar a estabilidade interna e responder às pressões políticas de suas próprias populações. De outro, princípios humanitários fundamentais exigem que vidas ameaçadas sejam protegidas. O debate entre soberania nacional e responsabilidade humanitária tornou-se um dos grandes desafios políticos do nosso tempo.
No entanto, por trás das decisões diplomáticas e dos discursos governamentais permanece uma verdade incontornável: o refugiado não é uma abstração estatística, mas um ser humano que perdeu quase tudo, exceto a esperança de recomeçar. As cicatrizes deixadas pelo deslocamento raramente desaparecem. Traumas psicológicos, sensação de perda e dificuldades de reconstruir vínculos acompanham muitos refugiados ao longo de toda a vida.
Diante dessa realidade, a questão dos refugiados ultrapassa o campo das políticas migratórias e se transforma em um teste moral para a própria civilização. A maneira como sociedades e governos respondem a essas crises revela, em última instância, quais valores orientam suas escolhas. A história mostra que fronteiras podem dividir territórios, mas não anulam a condição humana compartilhada por todos.
Enquanto guerras, perseguições e desigualdades persistirem, pessoas continuarão a fugir em busca de segurança. O verdadeiro desafio não está em impedir esse movimento — algo que a própria história demonstra ser impossível —, mas em decidir se o mundo responderá a ele com indiferença ou com responsabilidade. A dignidade humana, afinal, não deveria depender do lado da fronteira em que alguém nasceu.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

PENDURICALHOS

 FURAR O TETO

Na linguagem popular, trata-se de uma forma encontrada de “assaltar” os cofres públicos e “furar” o teto do Orçamento Nacional. A finalidade é aumentar os salários dos “marajás” do poder, sem ultrapassar o limite constitucional. Em outras palavras, trata-se do nada simpático “jeitinho brasileiro” de atropelar as regras sem incorrer, em tese, em crimes.

QUAL O TETO ESTIPULADO PELA CONSTITUIÇÃO

No Brasil, o teto máximo do salário, segundo a Constituição, não pode ultrapassar R$ 46 mil brutos. Ninguém pode ter remuneração superior a essa cifra. Porém, a lei deixa um vácuo normativo quanto ao conceito de “verbas indenizatórias”. Em tese, são valores ressarcidos a servidores públicos para compensar gastos no cumprimento de determinadas missões ou ainda direitos que não foram usufruídos (como a conversão de férias em dinheiro). Nada além disso. As verbas indenizatórias não são computadas no cálculo do teto salarial.

VERBAS INDENIZATÓRIAS

Essa foi a grande “brecha” encontrada para adicionar os chamados penduricalhos. Com isso, o que deveria ser apenas verba indenizatória passou a funcionar como verba adicional. A Emenda Constitucional nº 135, promulgada em dezembro de 2024 para promover a contenção de gastos, previa também que o Congresso Nacional aprovasse uma lei para pôr fim a essa distorção, adotando parâmetros claros sobre o que efetivamente pode ser considerado verba indenizatória e retirando os penduricalhos que nada têm a ver com indenização.

De acordo com vários juristas, a lei foi deturpada e suas finalidades se estenderam para diversos campos, distanciando-se do conceito original. Até o momento, porém, o Congresso não se manifestou de forma conclusiva, e a lei destinada a moralizar o dispositivo não foi editada. Na ausência dessa reforma, tornou-se mais fácil para os três Poderes criarem novas verbas adicionais por meio de atos administrativos.

COMO SURGIRAM OS PENDURICALHOS?

Os penduricalhos, no contexto do serviço público brasileiro, especialmente no Judiciário e nos demais Poderes, surgiram como forma de contornar o limite do teto salarial, aumentando os proventos sem alterar o salário-base constitucional.

MECANISMOS UTILIZADOS

1 – Resoluções internas: os próprios conselhos (CNJ e CNMP) aprovaram, ao longo dos anos, resoluções — muitas vezes de forma unânime e sem amplo debate no Congresso — criando gratificações e auxílios.

2 – Conversão de licenças-prêmio ou licenças compensatórias (folgas por trabalhos extras) em dinheiro, permitindo pagamentos elevados que, em casos de acúmulo, chegaram a ultrapassar R$ 100 mil mensais.

3 – Verbas indenizatórias: ressarcimentos, auxílios e licenças compensatórias que, por lei, não incidem no Imposto de Renda e não entram no cálculo do teto salarial.

4 – Efeito cascata: a criação de um benefício em uma esfera rapidamente se estende a outras esferas (estaduais, municipais e a outras carreiras, como procuradores e defensores).

MOTIVAÇÕES

– Aumento da remuneração sem aumento nominal de vencimentos. Isso evita a necessidade de aprovar reajustes salariais no Congresso, que gerariam maior tributação e maior visibilidade pública, seguida de críticas.

– Valorização da elite do funcionalismo, justificada por categorias do Judiciário e por medidas provisórias como forma de compensar acúmulo de processos, plantões ou equiparar ganhos à iniciativa privada, criando uma classe diferenciada de servidores, os chamados “marajás”.

– Simetria salarial: resoluções (como a de 2011 do CNJ) buscaram garantir a juízes e promotores benefícios equiparados, mas acabaram abrindo espaço para a multiplicação dos penduricalhos. Em 2024, esses benefícios já totalizavam mais de R$ 9 bilhões, e remunerações no Congresso Nacional chegaram a R$ 61.800 mensais, com reajustes extras acima do teto. O projeto aprovado por deputados e senadores permite que as remunerações extrapolem o limite constitucional.

QUAIS SÃO OS PENDURICALHOS

– Auxílio-peru: juntamente com o “auxílio-panetone”, pago a magistrados de tribunais estaduais na época do Natal.

– Licença compensatória: concessão de um dia de folga a cada três dias trabalhados, que pode ser convertido em dinheiro e acumulado com descansos aos sábados, domingos e feriados.

– Gratificação de acervo: remuneração por acúmulo de funções exercidas na mesma jornada de trabalho, em dias úteis e no período diurno.

– Auxílio-locomoção: pago inclusive a quem não comprova deslocamento para o trabalho.

– Auxílio-combustível: concedido mesmo a quem não possui veículo.

– Auxílio-educação: em muitos casos, pago a servidores que não têm essa despesa.

– Auxílio-saúde: pago independentemente da existência de plano de saúde.

– Licença-prêmio: vantagem que pode ser convertida em dinheiro no momento em que é requerida.

– Acúmulo de férias: por iniciativa do próprio servidor, podem ser convertidas em parcelas indenizatórias.

Observação: nota-se a ausência de critérios rigorosos para a distribuição das verbas públicas. A situação assemelha-se a um programa de auditório em que o tesoureiro pergunta a uma plateia seleta: “Quem quer dinheiro?”. Tal cenário revela grave desordem administrativa e falta de responsabilidade com os recursos públicos.

O MINISTRO FLÁVIO DINO ENTRA EM AÇÃO

No dia 5 de fevereiro de 2026, o ministro Flávio Dino, do STF, fez um alerta severo contra as verbas indenizatórias, afirmando que se transformaram em verdadeira desordem e vêm sendo utilizadas de forma indevida. Seu objetivo é pôr fim aos penduricalhos.

O presidente do STF, Edson Fachin, marcou para o dia 25 de fevereiro, em plenário físico, o julgamento definitivo da decisão do relator. Dino defende que a solução venha do Congresso, por meio da edição de uma nova lei que defina claramente o que pode e o que não pode exceder o teto salarial do funcionalismo. Segundo ele, “isso não pode ficar sem regras, pois esse tipo de ressarcimento, ao longo dos anos e com finalidades múltiplas, vem provocando distorções no conceito para o qual foi criado”.

Ainda de acordo com o ministro, “a desobediência ao teto constitucional alimenta a busca frenética por isonomia entre as demais carreiras públicas. É natural que haja uma corrida para reparar essa injustiça com a criação de mais indenizações acima do teto, que seriam estendidas a outras categorias, em um looping eterno”.

ORA, PARA QUE SERVE O TETO?

Alguém poderia cogitar a hipótese de retirar esse dispositivo da Constituição para pôr fim ao cinismo. Contudo, o caminho não é esse. O teto jamais poderá ser abolido; deve ser respeitado. É o mínimo que se espera para que a República deixe de ser um conceito abstrato e passe a valer para todos.

Se o STF estiver à altura de sua missão de guardião da Constituição, confirmará a liminar valendo-se da Carta Magna que rege o país, a qual não pode ser relativizada a fim de resguardar privilégios de uma minoria.

Um recado aos “marajás” detentores de supersalários: “O Dino vai pegá-los!” e acabar definitivamente com a chamada “farra do boi”. O Tesouro Nacional, que já mais parece uma peneira do que um cofre, agradece.

PROF. MARCOS MORAES.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O CENÁRIO PARA AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PARA PRESIDENTE JÁ ESTÁ ABERTO

 Antes de falarmos do cenário político atual, convém relembrarmos, ainda que resumidamente, como foram eleitos e o que fizeram os presidentes civis a partir de 1985.

DIRETAS JÁ

Ainda não existiam eleições diretas para eleger o presidente do Brasil, e o povo não se conformava com isso. Em 1983 ocorreu a primeira manifestação a favor das eleições diretas, em São Paulo, reunindo cerca de 10 mil pessoas. Em 1984, o movimento cresceu e tomou conta do país, sob o lema “Diretas Já”. Porém, não foi dessa vez. A emenda “Dante de Oliveira”, em favor das eleições diretas, não passou pelo Congresso, influenciado pelos militares. O presidente civil foi eleito indiretamente, por meio do Colégio Eleitoral.

OS CANDIDATOS

Dois candidatos foram escolhidos para disputar a presidência: Paulo Salim Maluf (pela ARENA, partido dos militares) e Tancredo Neves, candidato da “Aliança Democrática”, pelo PMDB e pelo Partido da Frente Liberal. Tancredo venceu as eleições, porém não conseguiu assumir o poder, pois faleceu antes. Assumiu, então, a presidência seu vice, José Sarney, da ARENA, partido que posteriormente mudou a sigla para PDS.

GOVERNO SARNEY

Começou a governar a partir de 1985, tendo sobre os ombros uma “herança maldita” adquirida dos militares (superendividamento e inflação). Durante seu governo, a inflação ultrapassou 1.700%. O salário do trabalhador era corroído com a velocidade de um jato supersônico. Os preços dos produtos, principalmente nos supermercados, eram remarcados para cima três vezes ao dia. O dinheiro não valia nada. O povo começou a fazer estoques de alimentos em casa para fugir dos constantes aumentos. Nenhum dos planos econômicos para conter a inflação deu certo.

ELEIÇÕES DIRETAS

Em 1988 foi promulgada a “Nova Constituição” (vigente até hoje), que trazia em seu bojo, como conteúdos irrevogáveis e inegociáveis (cláusulas pétreas), o modelo de governo democrático e o direito às eleições diretas para presidente.

PRIMEIRO PRESIDENTE ELEITO PELO VOTO DIRETO

Nunca houve no Brasil um grupo tão qualificado e heterogêneo para disputar o cargo tão cobiçado. Entre os concorrentes, podemos citar: Ulysses Guimarães, Lula, Mário Covas Jr., Paulo Maluf, Guilherme Afif, Aureliano Chaves, Fernando Collor de Mello e outros.

QUAL ERA A MELHOR ALTERNATIVA PARA OS ELEITORES

Na época, na mentalidade coletiva dos votantes prosperava, ainda que sutilmente, um sentimento de mudança e renovação, novas esperanças que seriam conquistadas por meio do voto e de uma ruptura definitiva com o passado. Esse foi o sentimento que acabou prevalecendo e levou ao segundo turno dois candidatos que não tinham praticamente nenhuma projeção no grupo dos “figurões”: Fernando Collor de Mello (PRN), ex-governador de Alagoas, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), ex-metalúrgico e ex-presidente do sindicato de sua categoria.

Collor apresentava-se ao público como o “caçador de marajás” (autoridades políticas dos três Poderes e funcionários do alto escalão que recebiam salários além do teto preestabelecido) e o presidente que acabaria com a inflação e com toda sorte de corrupção. Enquanto isso, Lula apresentava um programa para acabar com a fome e a miséria que tomavam conta do país. As propostas de Fernando Collor, somadas ao apoio da Rede Globo, prevaleceram, e Collor foi eleito o primeiro presidente pelo voto direto, pós-ditadura, em 1989.

Em 1990, sua grande medida foi impor à nação o “Plano Collor”, que promoveu um inédito confisco monetário, além do congelamento de preços e salários. Desta vez, as gôndolas dos supermercados permaneciam vazias, pois nenhum produtor estava disposto a perder. O plano não conseguiu conter o “dragão insaciável da inflação”, cujo apetite foi redobrado, elevando o índice inflacionário para 2.708,39%. A economia entrou em colapso e atingiu todas as classes sociais cuja renda estava sob confisco.

Em dois anos de governo, o presidente envolveu-se em escândalo de corrupção em parceria com Paulo César Farias, foi afastado do poder por renúncia e impeachment. Posteriormente, como senador da República, envolveu-se novamente em escândalos e encontra-se em prisão domiciliar, utilizando tornozeleira eletrônica. Após deixar a presidência, foi substituído por seu vice, Itamar Franco.

GOVERNO DE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Durante o governo de Itamar Franco, surgiu o “Plano Real”, orquestrado por seu ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, que, em seguida, tornou-se presidente. O plano previa valorização da moeda, que passou a se chamar “real”, contenção da inflação, atração de investimentos estrangeiros, abertura de mercados, estabilidade fiscal, privatização de estatais e derrubada de monopólios. Em suma, FHC aderiu ao neoliberalismo econômico, já em prática em diversos países.

Com a moeda mais forte e sem inflação, o povo comprava mais e gastava menos, pois os preços não mudavam e o salário passou a ter valor. Essa conjuntura favorável contribuiu para eleger FHC (PSDB) como presidente, em 1995.

Em seu segundo mandato, promoveu reformas na Previdência Social (INSS), aumentando o tempo de contribuição para requerer a aposentadoria, medida impopular e criticada por sindicatos e trabalhadores. Foi também nesse período que surgiram os primeiros sinais de recessão e ameaça de retorno da hiperinflação. O presidente adotou medidas austeras para manter a estabilidade econômica, o que gerou novas críticas.

A ONDA VERMELHA TOMA CONTA DA AMÉRICA LATINA

Antes do final do governo FHC, uma onda de esquerda atingiu a América Latina, e a maioria dos países elegeu candidatos dessa ala. No Brasil, foi eleito e reeleito, a partir de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com propostas de combate à fome, à miséria e ao desemprego.

Durante seus dois mandatos, o governo foi marcado por denúncias de corrupção, fraudes e escândalos (mensalão, Petrobras etc.), além de investigações conduzidas pela Operação Lava Jato. Ao término de seu governo, conseguiu eleger e reeleger sua sucessora, Dilma Vana Rousseff (PT).

Dilma sofreu impeachment em seu segundo mandato, sob acusação das chamadas “pedaladas fiscais”, e foi substituída por seu vice, Michel Temer.

O RETORNO DA DIREITA NO BRASIL

Em 1º de janeiro de 2019, tomou posse como presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), capitão reformado e ex-deputado federal, identificado com a direita. Após seu primeiro mandato, não conseguiu se reeleger. Posteriormente, foi investigado e julgado por atos considerados inconstitucionais, incluindo acusações relacionadas à tentativa de golpe de Estado.

O PT VOLTA AO PODER

Em 2023, Luiz Inácio Lula da Silva venceu as eleições presidenciais por pequena diferença de votos em relação a Bolsonaro, o que intensificou a polarização no país. O atual governo enfrenta dificuldades de governabilidade em razão da falta de consenso entre os Poderes e de novos escândalos que abalam a confiança da população.

O POVO ESTÁ DESCRENTE NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

O ânimo dos eleitores está em baixa. Diante de sucessivos escândalos e da percepção de distanciamento entre representantes e representados, cresce o sentimento de descrença.

Da primeira eleição direta para presidente até agora, já se passaram mais de três décadas, e estamos próximos de retornar às urnas pela nona vez. Muitos questionam se as escolhas feitas foram as melhores ou se o velho adágio popular — “o poder corrompe” — continua a se confirmar.

O processo eleitoral para a escolha de um novo presidente já está aberto. Pesquisas indicam que o país encontra-se dividido entre eleitores de Lula, de Bolsonaro e um terceiro grupo que rejeita ambos e busca uma alternativa capaz de representar equilíbrio e moderação.

PROFESSOR MARCOS MORAES