Professor Marcos Moraes
Vivemos, em nosso país, um momento crucial, no qual nossas instituições, a
democracia e a Nação parecem estar “na corda bamba”. As instituições
brasileiras vêm passando por sucessivos escândalos que apavoram e nos trazem
insegurança. Como ocorrências, podem ser citadas: a fraude do INSS, as emendas
parlamentares exorbitantes e opacas (sem transparência), o crime organizado, o
Banco Master, o tarifaço etc. Os acontecimentos são tão rápidos que não nos dão
chance de nos prepararmos. Tem sido muito difícil conviver com a audácia desses
protagonistas, que disseminam o terror em benefício próprio, sem se preocuparem
com as consequências.
ANESTESIA SOCIAL E EROSÃO CÍVICA
Acredita-se que a maioria dos brasileiros, há muito tempo, encontra-se
anestesiada, em plena inanição cívica. Até agora, faltou ao povo a capacidade
de indignar-se e reagir aos sucessivos abusos que se acumulam em nossas
instituições públicas e privadas, interferindo diretamente na vida cotidiana.
Parece que toda essa série de denúncias se tornou algo normal, diante de tamanha
apatia. A corrupção, a impunidade e muitas decisões políticas e judiciárias
atropelam a sensatez e não promoveram mudanças no estado letárgico em que
estamos mergulhados. Possivelmente, isso se deve ao medo, à descrença ou
simplesmente à adesão ao velho jargão popular: “Não adianta fazer nada, pois
tudo no Brasil sempre acaba em pizza.”
A CONFIANÇA PÚBLICA SOB ATAQUE
Assuntos como os exemplificados anteriormente eram debatidos com rigor e
transparência. Hoje, são tratados como “chuvas passageiras” ou como pequenas
crises estruturais. Um episódio recente deixou o mundo estarrecido: o chamado
“Caso do Banco Master”, diagnosticado pelo ministro da Economia, Fernando
Haddad, como “a maior fraude bancária ocorrida no Brasil”.
A ASCENSÃO E A QUEDA DO BANCO MASTER
O Banco Master surgiu em 2018 como uma instituição financeira pequena, sem
grande projeção. Seu presidente, Daniel Vorcaro, tinha por finalidade
transformá-lo em um banco de médio porte. Para isso, precisava de grandes
volumes de capital e não mediu esforços, recorrendo a atalhos fraudulentos e
criminosos. Formou um conglomerado poderoso, representado por empresários,
grandes investidores, juízes e políticos, possivelmente para blindar a entidade
e ampliar seus fundos. A meta era elevar o status da instituição. Contudo, essa
trajetória imprudente prejudicou investidores, credores, o mercado financeiro e
o próprio país. A ambição extrapolou os limites legais, levando a entidade ao
risco de liquidação.
AS CAUSAS DA LIQUIDAÇÃO
– O Master tornou-se conhecido por oferecer Certificados de Depósito
Bancário (CDBs) com altíssima rentabilidade, garantidos pelo Fundo Garantidor
de Créditos (FGC).
– Comercialização de créditos podres ao BRB (Banco de Brasília).
– Para remunerar os títulos, a instituição investiu em ativos de alto risco,
como precatórios e ações de empresários com graves fragilidades financeiras e
gestão fraudulenta, o que despertou a desconfiança do setor financeiro.
– O conglomerado Vorcaro foi alvo de operações suspeitas e de supostas ligações
com outras gestoras.
Enquanto tudo isso ocorria, o Banco Master acumulava grandes volumes de capital
em busca de sua meta final. Contudo, não alcançou o status pretendido, e as
irregularidades vieram à tona.
SINAIS DE ALERTA E INTERVENÇÃO ESTATAL
Em março de 2025, o BRB anunciou a compra de parte relevante do Banco
Master. O anúncio causou estranheza no setor financeiro, que já identificava
fragilidades de liquidez na instituição. Em setembro, o Banco Central vetou o
negócio e iniciou apurações, além de comunicar os ilícitos ao Ministério
Público Federal. Em 17 de novembro, Vorcaro foi preso em Guarulhos ao tentar
fugir, permanecendo detido por 12 dias. No dia seguinte, a entidade foi
liquidada. O episódio provocou forte instabilidade no mercado financeiro e entre
os clientes, gerando riscos ainda incalculáveis.
O CAMINHO JUDICIAL DO PROCESSO
O processo foi encaminhado à 10ª Vara Federal de Brasília. Em dezembro, o
ministro Dias Toffoli retirou o processo da referida vara e o levou ao STF,
determinando sigilo e atendendo a pedido da defesa. Tornou-se relator e assumiu
a função de juiz supervisor.
CONFLITOS INSTITUCIONAIS E
QUESTIONAMENTOS JURÍDICOS
O juiz supervisor deve garantir direitos fundamentais, autorizando medidas
como buscas, quebras de sigilo e prisões. Entretanto, Toffoli passou a atuar
como juiz investigador, assumindo atribuições da Polícia Federal, o que gerou
questionamentos internos. Para demonstrar imparcialidade, decretou a prisão
preventiva de Fabiano Zetel. Alegou inércia da PF e determinou que as provas
permanecessem sob custódia do STF. Após críticas de juristas, recuou e
autorizou a análise pela PGR e, posteriormente, pela PF.
DIVISÕES NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
O avanço das apurações provocou divisão no STF. Toffoli e Alexandre de
Moraes tornaram-se o centro das controvérsias. Há críticas quanto à
imparcialidade, sobretudo em razão de vínculos familiares e contratuais
relacionados ao Banco Master.
PRESSÃO POLÍTICA E RISCO INSTITUCIONAL
Cresce a pressão política e institucional. Parlamentares articulam a
criação de uma CPMI para averiguar as relações entre membros do STF e o
escândalo financeiro.
O CUSTO SOCIAL DA OMISSÃO
Daniel Vorcaro admitiu crise de liquidez e dependência do FGC. Embora o FGC cubra parte das perdas individuais, os impactos indiretos recaem sobre a sociedade. Caso não haja reação social, transparência e respeito à Constituição, corre-se o risco de enfraquecimento gradual da democracia.
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