sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A REPÚBLICA DAS BANANAS NECESSITA SER SANEADA

Crise institucional, desequilíbrio entre os Poderes e o esvaziamento da governança pública

Autoria: Prof. Marcos Moraes

 

1. O ANO DO CONFLITO PERMANENTE
O que mais vimos e assistimos no ano de 2025, no campo da política brasileira, entre os três Poderes, foram desavenças, discórdia, manifestações de protesto, descaso com as necessidades do país, desrespeito à democracia e ao dinheiro público, além do não cumprimento da Constituição; em outras palavras, uma verdadeira esculhambação. O que vivemos foi o oposto de nosso lema maior: “Ordem e Progresso”. Caso se imagine que tudo isso irá mudar para melhor em 2026 e que os três Poderes se unirão para trabalhar em conjunto, sem confrontos, trata-se de um engano. O ano de 2026 promete iniciar-se tenso, recheado de grandes embates políticos e com pouco trabalho em prol do país.

2. UM EXECUTIVO ENFRAQUECIDO E DEPENDENTE
Entre os três Poderes, os que mais se evidenciaram em 2025 foram o Poder Legislativo e o Poder Judiciário; o Poder Executivo, nesse cenário, tornou-se mero coadjuvante, dada a sua dependência em relação ao Congresso Nacional.

3. O CONGRESSO EM XEQUE
Não são poucos os brasileiros que afirmam que o atual Congresso foi o pior desde o fim da Ditadura Militar. Entre tantas humilhações e atos circenses aos quais o país foi submetido, o mais execrável, sob o ponto de vista republicano, foi a proliferação das chamadas “emendas parlamentares”, que, além de ferirem o artigo 165 da Constituição — o qual estabelece ser privativa do Poder Executivo a iniciativa da Lei Orçamentária —, agravaram a penúria dos cofres públicos.

4. A CAPTURA DO ORÇAMENTO PÚBLICO
A consequência dessa ação desordenada do Congresso foi o aumento das despesas obrigatórias em ritmo superior ao da arrecadação. Os recursos sob controle do Executivo, destinados a despesas e investimentos públicos, foram gradativamente definhando.
Observe-se o seguinte exemplo: no orçamento de 2026, a chamada “fatia livre” soma 190,2 bilhões de reais, dentro de um orçamento total de 2.318,8 bilhões de reais. Desse montante, apenas 8,2% permanecem disponíveis para a atuação do Executivo. Em contrapartida, as emendas parlamentares absorvem cerca de 33% dessa parcela, ou seja, aproximadamente 61,4 bilhões de reais — um volume excessivo de recursos.

5. A HEMORRAGIA FISCAL
Tal fator, por si só, representa uma grave hemorragia nos cofres públicos. Para cobrir o rombo no Tesouro e cumprir suas metas, o governo será obrigado a apertar ainda mais o cidadão, que já se encontra espremido como um bagaço de limão sem caldo.

6. A ORIGEM DA ENGENHARIA DAS EMENDAS
A festa das emendas, grande vilã de tantos desequilíbrios, teve início em 2015, quando o então deputado federal Eduardo Cunha, em disputa com a já enfraquecida presidente Dilma Rousseff, articulou a aprovação de uma emenda constitucional que tornou as emendas parlamentares impositivas — aquelas que obrigam o Executivo a liberar recursos para deputados federais e senadores. Com isso, parte significativa do poder orçamentário foi transferida do Executivo para o Legislativo.

7. TIPOS DE EMENDAS E A FRAGILIDADE DO CONTROLE
As principais modalidades são:
– Individuais: distribuídas igualmente entre os congressistas da Câmara e do Senado;
– De bancada: indicadas coletivamente por parlamentares de um mesmo estado.
Em ambos os casos, consolidou-se uma transferência excessiva de poder orçamentário ao Legislativo, sem justificativa técnica consistente e com grave deficiência de transparência na destinação dos recursos, uma vez que praticamente inexiste acompanhamento ou fiscalização efetiva dessa parcela do dinheiro público.

8. FLÁVIO DINO E O ENFRENTAMENTO INSTITUCIONAL
Foi a partir do crescimento acelerado desse desequilíbrio que entrou em cena o ministro Flávio Dino, relator das ações que tratam do tema. O ministro passou a ser visto como uma verdadeira “pedra no sapato” dos congressistas.

9. O RETORNO DISFARÇADO DO ORÇAMENTO SECRETO
O debate iniciado pelo ministro começou com exigências de maior transparência e rastreabilidade das emendas. Evoluiu para questionamentos constitucionais mais amplos, incluindo as emendas impositivas. No final de 2025, pouco antes do recesso parlamentar, os congressistas, a toque de caixa e de forma surpreendente, resolveram ressuscitar o pagamento de supostos restos a pagar do chamado “orçamento secreto” — mecanismo que sustentava um esquema irregular de distribuição de recursos por meio das emendas de relator (RP-9), declarado inconstitucional em 2022.
O expediente ilegal reapareceu nas últimas horas antes do recesso. O Congresso, além de resgatar cerca de 3 bilhões de reais, buscou destravar a execução do antigo orçamento secreto, na prática tentando reativá-lo para 2026.

10. UMA LUTA ASSIMÉTRICA
Ao que tudo indica, Flávio Dino enfrentará uma dura batalha contra o Congresso Nacional, praticamente sozinho, como alguém que luta contra moinhos de vento.

11. A RESPONSABILIDADE DA SOCIEDADE
Não basta que instituições, mídia e sociedade civil apenas manifestem apoio simbólico. É necessário engajamento concreto e ações conjuntas para extirpar esse sistema que se assemelha a uma erva daninha, capaz de corromper e empobrecer o solo institucional brasileiro, já visivelmente desgastado.

12. A PERGUNTA INCÔMODA
Por que os parlamentares precisam de tanto dinheiro?