quarta-feira, 25 de março de 2026

A nova declaração de Trump preocupada Lula

A nova declaração do governo Trump sobre PCC e CV que preocupa o governo Lula: 'Ameaças à segurança regional'

Nota do Departamento de Estado é divulgada em meio a receio do governo brasileiro de que os EUA classifiquem as duas facções como organizações terroristas. Temor é de que medida possa justificar intervenções na região

 

O Departamento de Estado dos Estados Unidos disse nesta terça-feira (10) que o governo americano vê as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como ameaças de alcance regional.

A informação consta de uma nota publicada inicialmente pelo jornal O Globo e confirmada pela BBC News Brasil.

A declaração acontece após o portal UOL ter publicado reportagem no domingo (8) sobre a intenção do governo de Donald Trump de classificar as duas facções brasileiras como organizações terroristas.

"Os Estados Unidos veem as organizações criminosas brasileiras, inclusive o PCC e o CV, como ameaças significativas à segurança regional em função do seu envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional", diz um trecho da nota.

Sobre a possibilidade de classificá-las como organizações terroristas, a nota diz que o governo americano não faz previsões sobre "potenciais designações terroristas ou deliberações relativas a designações terroristas" e que o país estaria "totalmente empenhado em tomar medidas adequadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas".

Diplomatas e integrantes do governo Lula ouvidos reservadamente pela BBC News Brasil avaliam que uma medida desse tipo não seria tecnicamente correta, uma vez que não haveria indícios de que as duas facções pratiquem terrorismo sob a lei brasileira.

Nos bastidores, o temor é que a classificação das facções como organizações terroristas seja usada para justificar ações, inclusive militares, na região, a exemplo dos bombardeios a barcos na Costa de países como Colômbia e Venezuela sob o pretexto de combater o narcotráfico.

Uma fonte ouvida pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que, no domingo (8), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sobre o tema.

Procurado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil não comentou o assunto.

O episódio ocorre em um momento delicado da relação bilateral.

Brasil e Estados Unidos vêm negociando, há pelo menos dois meses, a realização de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump.

 

Quais os critérios dos EUA para classificar organizações terroristas estrangeiras? Governo Lula quer barrar designação de facções brasileiras

Em ligação, Mauro Vieira conversou com Marco Rubio para tentar evitar que os EUA classifiquem facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho (CV), como Organizações Terroristas Estrangeiras.

Em ligação neste domingo (8), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira conversou com o secretário de Estado dos Estados UnidosMarco Rubio, para tentar evitar que os EUA classifiquem facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho (CV), como Organizações Terroristas Estrangeiras.

 

Mas o que é preciso para receber a designação de uma organização terrorista estrangeira nos EUA?

Segundo o Departamento de Estado do país, são três condições principais:

Ser uma organização estrangeira.

Engajar-se em atividade terrorista (ou ter capacidade e intenção de fazê-lo).

Representar ameaça à segurança de cidadãos ou à segurança nacional dos EUA (defesa, relações exteriores ou interesses econômicos).

Ainda pelas regras do governo norte-americano, a classificação é feita após a elaboração de um dossiê com informações de fontes abertas e sigilosas que comprovem o cumprimento dos critérios legais.

A decisão é tomada pelo secretário de Estado em consulta com o Departamento de Justiça e o Tesouro, e precisa ser comunicada ao Congresso, que tem sete dias para analisar a medida.

Caso não haja bloqueio, a designação é publicada no registro oficial do governo e passa a valer.

Após a publicação, a organização ainda pode recorrer à Justiça americana e também solicitar a revisão ou revogação da classificação caso consiga demonstrar que as circunstâncias que motivaram a decisão mudaram.

O que acontece quando um grupo recebe essa designação?

A classificação tem consequências legais e políticas, por exemplo:

É crime nos EUA fornecer “apoio material” (dinheiro, treinamento, armas, serviços etc.) ao grupo.

Ativos financeiros ligados ao grupo podem ser bloqueados e transações proibidas.

Membros ou associados podem ter visto negado ou ser deportados.

A designação ajuda a isolar o grupo internacionalmente e a cortar seu financiamento.

Desde o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025, os EUA designaram 25 organizações estrangeiras como terroristas. Mais recentemente, em novembro do ano passado, o Cartel de los Soles - organização venezuelana que os EUA dizem ser chefiada pelo então presidente Nicolás Maduro - recebeu a classificação.

Washington acusa o Cartel de los Soles de trabalhar com a gangue venezuelana Tren de Aragua, também já designada como organização terrorista estrangeira pelos Estados Unidos, no envio de drogas aos EUA.

Na época, Trump afirmou que a inclusão dá aos EUA o poder de atacar alvos ligados a Maduro em território venezuelano.

Em caráter reservado, diplomatas mencionam o temor de que os Estados Unidos utilizem o combate ao narcotráfico e a classificação de grupos como terroristas para justificar operações militares no Brasil.

A conversa com Rubio

Além da designação de organizações terroristas, Vieira e Rubio trataram da viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Washington.

Lula pretende fazer uma visita oficial à Casa Branca, para se reunir com o presidente Donald Trump. A ideia inicial era que o encontro ocorresse neste mês de março, mas diante da dificuldade de agendas, uma data ainda não foi acertada.

O debate no governo americano sobre designar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas não é novo. Mas, ganhou novas nuances após o ataque militar dos Estados Unidos na Venezuela, em janeiro deste ano (entenda mais abaixo).

Conforme a legislação norte-americana, o governo dos Estados Unidos possui mecanismos legais e políticas ativas que permitem intervenção, incluindo o uso de força militar e operações unilaterais, contra organizações designadas como terroristas estrangeiras.

O Secretário de Estado, em consulta com o Departamento de Justiça e Tesouro, pode designar grupos como terroristas, permitindo sanções financeiras, restrições de imigração e ação militar.

Sob a gestão de Donald Trump, o governo norte-americano tem incluído cartéis de drogas na América Latina na lista. Com isso, autoriza o Pentágono a usar força militar contra eles, inclusive, de forma unilateral.

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Essas ações permitem o uso de inteligência e capacidades militares do Departamento de Defesa para atacar grupos considerados "narcoterroristas".

O Departamento de Estado dos Estados Unidos disse nesta terça-feira (10) que o governo americano vê as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como ameaças de alcance regional.

A informação consta de uma nota publicada inicialmente pelo jornal O Globo e confirmada pela BBC News Brasil.

A declaração acontece após o portal UOL ter publicado reportagem no domingo (8) sobre a intenção do governo de Donald Trump de classificar as duas facções brasileiras como organizações terroristas.

"Os Estados Unidos veem as organizações criminosas brasileiras, inclusive o PCC e o CV, como ameaças significativas à segurança regional em função do seu envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional", diz um trecho da nota.

Sobre a possibilidade de classificá-las como organizações terroristas, a nota diz que o governo americano não faz previsões sobre "potenciais designações terroristas ou deliberações relativas a designações terroristas" e que o país estaria "totalmente empenhado em tomar medidas adequadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas".

Diplomatas e integrantes do governo Lula ouvidos reservadamente pela BBC News Brasil avaliam que uma medida desse tipo não seria tecnicamente correta, uma vez que não haveria indícios de que as duas facções pratiquem terrorismo sob a lei brasileira.

Nos bastidores, o temor é que a classificação das facções como organizações terroristas seja usada para justificar ações, inclusive militares, na região, a exemplo dos bombardeios a barcos na Costa de países como Colômbia e Venezuela sob o pretexto de combater o narcotráfico.

Uma fonte ouvida pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que, no domingo (8), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sobre o tema.

Procurado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil não comentou o assunto.

O episódio ocorre em um momento delicado da relação bilateral.

Brasil e Estados Unidos vêm negociando, há pelo menos dois meses, a realização de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump.

Lula chegou a dizer que a reunião poderia acontecer no dia 16 de março, mas a data não foi confirmada.

Por que governo não considera que facções sejam grupos 'terroristas'

A discussão sobre a designação de facções brasileiras como entidades terroristas vem sendo tratada pelos dois governos há pelo menos um ano.

Em maio de 2025, o então secretário nacional de Justiça, Mário Sarrubo, disse à agência Reuters que o governo brasileiro havia rejeitado um pedido sobre o assunto feito por David Gamble, um oficial do Departamento de Estado americano responsável pela estratégia do país em relação a sanções.

Na época, Sarrubo descartou a tese de que as facções brasileiras atuem como organizações terroristas.

"Nós não temos organizações terroristas aqui. Nós temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade", disse Sarrubo à época.

A Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) brasileira classifica como terrorismo os atos "cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública".

A lei diz ainda que esses atos devem ter "razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião".

Por isso, argumenta o governo, não seria correto classificar o PCC e o CV como organizações terroristas.

De acordo com o governo, a atuação das facções é movida por interesses econômicos e não políticos.

Nessa interpretação, sua finalidade seria econômica — não política ou ideológica.

Parlamentares de direita, no entanto, especialmente os mais alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) defendem que PCC e CV sejam enquadrados como organizações terroristas.

Parte da base bolsonarista apoia um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional que equipara os crimes praticados por facções criminosas a atos de terrorismo.

O projeto chegou a ser aprovado pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados e ainda precisa ser aprovado pelo Plenário da Câmara e do Senado antes de ser enviado à sanção do presidente Lula.

Quais os critérios dos EUA para classificar organizações terroristas estrangeiras? Governo Lula quer barrar designação de facções brasileiras

Em ligação, Mauro Vieira conversou com Marco Rubio para tentar evitar que os EUA classifiquem facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho (CV), como Organizações Terroristas Estrangeiras.

Em ligação neste domingo (8), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira conversou com o secretário de Estado dos Estados UnidosMarco Rubio, para tentar evitar que os EUA classifiquem facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho (CV), como Organizações Terroristas Estrangeiras.

Mas o que é preciso para receber a designação de uma organização terrorista estrangeira nos EUA?

Segundo o Departamento de Estado do país, são três condições principais:

Ser uma organização estrangeira.

Engajar-se em atividade terrorista (ou ter capacidade e intenção de fazê-lo).

Representar ameaça à segurança de cidadãos ou à segurança nacional dos EUA (defesa, relações exteriores ou interesses econômicos).

Ainda pelas regras do governo norte-americano, a classificação é feita após a elaboração de um dossiê com informações de fontes abertas e sigilosas que comprovem o cumprimento dos critérios legais.

A decisão é tomada pelo secretário de Estado em consulta com o Departamento de Justiça e o Tesouro, e precisa ser comunicada ao Congresso, que tem sete dias para analisar a medida.

Caso não haja bloqueio, a designação é publicada no registro oficial do governo e passa a valer.

Após a publicação, a organização ainda pode recorrer à Justiça americana e também solicitar a revisão ou revogação da classificação caso consiga demonstrar que as circunstâncias que motivaram a decisão mudaram.

O que acontece quando um grupo recebe essa designação?

A classificação tem consequências legais e políticas, por exemplo:

É crime nos EUA fornecer “apoio material” (dinheiro, treinamento, armas, serviços etc.) ao grupo.

Ativos financeiros ligados ao grupo podem ser bloqueados e transações proibidas.

Membros ou associados podem ter visto negado ou ser deportados.

A designação ajuda a isolar o grupo internacionalmente e a cortar seu financiamento.

Desde o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025, os EUA designaram 25 organizações estrangeiras como terroristas. Mais recentemente, em novembro do ano passado, o Cartel de los Soles - organização venezuelana que os EUA dizem ser chefiada pelo então presidente Nicolás Maduro - recebeu a classificação.

Washington acusa o Cartel de los Soles de trabalhar com a gangue venezuelana Tren de Aragua, também já designada como organização terrorista estrangeira pelos Estados Unidos, no envio de drogas aos EUA.

Na época, Trump afirmou que a inclusão dá aos EUA o poder de atacar alvos ligados a Maduro em território venezuelano.

Sob a gestão de Donald Trump, o governo norte-americano tem incluído cartéis de drogas na América Latina na lista. Com isso, autoriza o Pentágono a usar força militar contra eles, inclusive, de forma unilateral.

EUA dizem que PCC e CV são ameaças, mas não confirmam designação terrorista

Em comunicado enviado à CNN Brasil, o Departamento de Estado disse estar comprometido em tomar medidas cabíveis contra grupos estrangeiros envolvidos em terrorismo

Para o Brasil, a medida impõe risco à soberania e ao país graves consequências.

A tentativa de equiparar facções criminosas a grupos terroristas é motivo de preocupação no governo Lula, que vê a medida como um risco à soberania.

Se os EUA declararem unilateralmente facções como o PCC e o CV como terroristas, a avaliação é de que uma brecha seria aberta, facilitando uma intervenção militar no país e a aplicação de novas sanções, inclusive financeiras.

Os critérios dos EUA para enquadrarem PCC e CV como grupos terroristas

Possível ação do governo de Donald Trump já foi utilizada contra criminosos do México e Venezuela

 

Leia mais em: https://veja.abril.com.br/brasil/os-criterios-dos-eua-para-enquadrarem-pcc-e-cv-como-grupos-terroristas/